Publicado por: miwi | maio 5, 2008

[Tradução] Pensamentos sobre a Importância de Jogar, por Dani Bunten

Esses dias eu estava lendo sobre gamedesign, e uma das recomendações em um excelente blog, o Applied Game Design, dizia “pelo amor de deus, conheça Dani Bunten!”. Há razão para isso: antes mesmo de muitos de nós sequermos sonharmos com a área, Dani já revolucionava, pensava diferente, impulsionava a indústria dos jogos para frente. E, sinceramente, alguém que trabalha na área de jogos, faz uma operação de sexo e ainda tem coragem de admitir que se arrependeu no mínimo merece meu respeito.

Uma pena que essa pessoa tenha morrido tão cedo. Por que pessoas tantas pessoas relevantes morrem antes do que deveriam?

Em todo caso, em seu site pessoal, eu comprei um pequeno artigo que eu considerei extremamente interessante, e resolvi traduzir. Aqui estão as partes originais em block-quotes e as partes traduzidas logo abaixo. Não tenho muita experiência com traduções, então, qualquer correção ou comentário, sou toda ouvidos 🙂

The Importance of Play, by Dani Bunten Berry, 1996


A Importância de Jogar, de Dani Bunten Berry, 1996, traduzido por Cindy “MiWi” Dalfovo, 2008.

Several years ago when I was getting involved with a psychologist (who I later married and divorced), I had this need to find justification for my career. Writing video games just didn’t seem sophisticated enough. I searched for deeper roots of play to rationalize the value of my profession. I found a couple of books that dealt with the issue and wrote a synopsis of the best one for the “Journal of Computer Game Design” (or was it “Computer Gaming World”?). With that publication I satisfied my need for credibility (at least in my own eyes). Although the information was entertaining it had little to offer the day to day struggle to make good games.

Muitos anos atrás, quando eu estava me envolvendo com uma psicóloga (com quem mais tarde eu me casei e me divorciei), eu tinha esse necessidade para encontrar justificativa para a minha carreira. Escrever video games simplesmente não parecia sofisticado o suficiente. Eu procurei por raízes mais profundas de jogos para racionalizar o valor da minha profissão. Eu achei alguns livros que lidavam com o problema e fiz uma sinopse do melhor deles para o “Journal of Computer Game Design” (NT: publicação fundada por Chris Crawford, outro guru da área)(ou seria a “Computer Gaming World”?). Com essa publicação eu satisfiz minha necessidade de credibilidade (ao menos aos meus olhos). Embora a informação fosse interessante ela tinha pouco a oferecer para o esforço do dia-a-dia para fazer bons jogos.

Recently, I’ve had the urge to rethink my career (I wonder if the fact that I’m single again has anything to do with this malaise). Even if I stay in the games biz, I think a little “starting from scratch” would be in order. I feel like our medium has hit a wall. In addition, there’s the new field of on-line gaming which feels like it needs a whole new approach so it doesn’t end up with more of the same dumb (or should I say creativity-challenged) designs from the floppy, CD and cart business. So, again I went to the local university’s library and looked at the current offering as regards cognitive/developmental models for play motivation and found that there is nothing new. I borrowed the old book and refreshed my memory. Here is a summary of it.

Recentemente, eu tive a necessidade de repensar minha carreira (eu me pergunto se o fato de eu estar solteira de novo tem algo a ver com este mal). Mesmo que eu permaneça no mercado dos jogos, eu acho que um pouco de “recomeçando do zero” cairia bem. Eu sinto que o nosso meio atingiu uma parede. Ademais, há este novo campo de jogatina online que parece precisar de uma nova visão para que não acabe com os mesmos designs idiotas (ou eu deveria dizer sem criatividade) do negócio de disquetes, CDs e cartuchos. Então, de novo eu fui até a biblioteca da universidade local e olhei para o que estava disponível na área referente a modelos de desenvolvimento/cognitivos para motivação do jogador, e achei que não havia nada de novo. Eu emprestei o mesmo livro velho e refresquei minha memória. Aqui está um resumo dele.

The book is Why People Play by M.J.Ellis (1973, Prentice Hall, Library of Congress classification BF717 E4.3). It devotes a major amount of space to a pretty broad background and taxonomy of the theories of play motivation. However, what I found most useful was the theory of Optimal Arousal Level. It’s been over a decade since I first came across this model for the motivation of play behavior. Since then I have read widely from the field of cognitive science (the bastard child of neurology and experimental psychology) and although there hasn’t been any new research regarding the motivation for play, the underlying premises of this theory seem to have stood up and to fit the current cognitive science models (at least as far as this lay-person can see).

O livro é Porque as Pessoas Jogam (Why People Play), de M.J. Ellis (1973, Prentice Hall, Library of Congress classification BF717 E4.3). Ele devota um grande espaço para um cenário e taxonomia bastante abertos das teorias da motivação do jogador.No entanto, o que eu achei mais útil foi a teoria do Nível de Estimulação Ótimo. Faz mais de uma década desde que eu me deparei com este modelo da motivação do jogador. Desde então eu tenho lido muito do campo da ciência cognitiva (a filha bastarda da neurologia e psicologia experimental) e embora não tenha havido nenhuma nova pesquisa a respeito da motivação do jogador, as premissas fundamentais desta teorias parecem ter sobrevivido e se mantido adequadas aos modelos atuais da ciência cognitiva (ao menos até onde esta pessoa pacata pode ver).

The theory postulates that higher mammalian brains have an optimal arousal level to which they are constantly striving. To increase the arousal level the brain frequently pushes the organism to execute actions which have no immediate survival enhancing function. These activities we call play. If there is too little stimulation in the organism’s environment then it is driven to seek more “interesting” and unpredictable experiences to balance the boredom of real-life. Conversely, if the organism is under stress through over-stimulation, it will attempt to escape to a low stimuli environment (TV couch potato). If you include the fact that almost any type or level of stimuli will become a “background” level if it’s repeated for a period of time (through the mechanism of habituation) you have what can be thought of as an instinct to play in all mammalian brains. That instinct pushes the organism into the most variable and dynamic regions of the world it inhabits because only those area will still satisfy the organism’s need for novel stimuli. I could imagine that this is the survival advantage that set our mammalian ancestors apart from their reptilian competitors. This would push the little mammals’ attention to those weird and unusual aspects of the ecosystem which would be just those areas where new threats and opportunities where likely to arise.

A teoria afirma que mamíferos mais evoluídos possuem um nível de excitação ótimo que eles estão constamente perseguindo. Para aumentar o nível de excitação, o cérebro frequentemente empurra o organismo a executar ações que não possuem nenhuma função imediata de sobrevivência. A estas atividades nós denominamos jogar. Da mesma maneira, se o organismo estiver sob stress devido a super estimulação, ele irá tentar escapar para um ambiente de baixo estímulo (como se enrolar na frente da TV). Se você incluir o fato de que quase todo tipo ou nível de estimulação se torna um nível “habitual” se for repetido por um período de tempo (através do mecanismo de habituação) você tem o que pode ser visto como um instinto para jogar em todos os cérebros mamíferos. O instinto pressiona o organismo às regiões mais variadas e dinâmicas do mundo que habita porque somente essas áreas irão satisfazer a necessidade do organismo por novos estímulos. Eu posso imaginar que essa é a vantagem de sobrevivência que colocaram nossos ancestrais mamíferos separados de seus competidores répteis. Isso iria forçar a atenção dos mamíferos a esses aspectos estranhos e não-usuais do ecossistema que seriam justamente onde novas ameaças e oportunidades provavelmente apareceriam.

This need for more stimuli is also a very effective teacher. Have you ever watched a kitten play with a mouse? The optimal arousal mechanism makes the cat attentive to the mouse as a stimuli generator even if the cat isn’t hungry. In the process of this “play”, the cat learns all it can about mice and their ways of escaping. This kind of lesson is not hardwired into the brain of the cat but is instead reinvented each generation so that if mice mutate, cats will still figure them out. As someone who has programmed her share of algorithms to solve problems with code I am truly amazed at the elegance of this little piece of code installed in our brains! When you’ve done all that needs to be done to insure your survival today (work), if you still have some energy then go explore interesting new stimuli that may affect your survival tomorrow (play).

A necessidade por mais estímulo também é uma excelente professora. Você já observou um gato brincar com um rato? O mecanismo de excitação ótima faz com que o gato preste atenção no rato como um gerador de estímulo mesmo quando o gato não está com fome. No processo de “jogar”, o gato aprende tudo o que pode sobre o rato e suas maneiras de escapar. Esse tipo de lição não é impressa de maneira permanente no cérebro do gato mas é, ao invés disso, reinventada a cada geração, de maneira que se o rato sofrer uma mutação, os gatos ainda irão dar um jeito de entendê-los. Como alguém que programou sua parcela de algoritmos para resolver problemas através de código eu fico realmente impressionada com a elegância desse pequeno pedaço de código instalado em nossos cérebros! Quando você já fez tudo o que era necessário para a sua sobrevivência hoje (trabalho), se você ainda tiver alguma energia então vá explorar novos estímulos que podem afetar a sua sobrevivência amanhã (jogar).

Thus, play is not some meaningless activity. It’s likely that the instinct to play led to success of mammals, primates and homo-sapiens who in that order exhibit the need to play more widely and longer into adulthood. That makes designing games not a self-indulgent fatuous career but a method of offering opportunities to evolve and learn for our species. As a profession it could stand up there with psychologists and philosophers. Even if this theory doesn’t translate into immediate techniques to improve games, just knowing how essential play is to the process of human evolution can help those of us engaged in this career feel better about ourselves. Feeling important is the first step to doing important work. Wanta play?

Então, jogar não é mais uma atividade sem sentido. É provável que o instinto de jogar levou ao sucesso dos mamíferos, primatas e homo-sapiens que nessa ordem exibem a necessidade de jogar mais largamente e durante mais tempo na ma vida adulta. Isso faz com que projetar jogos não seja uma carreira tola e auto-indulgente mas um método para oferecer oportunidades de evolução e aprendizado para nossa espécie. Como profissão ela poderia estar ao lado de psicólogos e filósofos. Mesmo que essa teoria não se traduza em técnicas imediatas para melhorar jogos, apenas saber quão essencial é jogar no processo de evolução humana pode ajudar aqueles engajados nesta carreira a se sentirem melhor sobre si mesmos. Sentir-se importante é o primeiro passo para se fazer trabalho importante. Quer jogar?

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Responses

  1. nhaaaaaa
    quer jogar mor mor???
    texto mega interessante, coloca em um novo patamar a carreira de criação de jogos com uma ótima avaliação e colocação no aspecto da evolução humana, e ainda torna-se um texto motivante para todo game designer, progamador e etc…
    sempre minha gênia linda me mostrando textos impressionantes
    a namorada mais perfeita do mundo
    te amo mor mor
    :*******:
    muito e…
    mais
    XDDDDDDDDDD

  2. Brilhante e atemporal…

    Em 1996 ele já sentia a falta de criatividade nos jogos e buscava novos meios de interação…

    Só pense no salto que a indústria deu nos últimos 12 anos e em como o que Daniel Bunten disse ainda faz sentido…. e essa teoria de comportamento (*sem palavras*)…

    Parabéns pelo achado Miwi, vou ser obrigado a me aprofundar um pouco mais no assunto rsrs

    []’s

  3. Bela de uma filosofia de vida 😛

    Eu quando to estressada preciso de jogar xD
    E quando eu falo que aprendo com os jogos muita gente ri de mim =(

  4. Miwi, um “must-read” pra você rsrs, não sabia como te passar então vou deixar por aki.

    http://www.gamasutra.com/php-bin/news_index.php?story=18472

    Abraço!

  5. […] noção pode paracer meio absurda – o que jogos e administração política tem a ver? Mas, como Dani Bunten já falou, jogar é uma importante ferramenta da nossa civilização para aprender novas habilidades […]


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