Publicado por: miwi | outubro 20, 2008

Um Relato Rápido Sobre Percepções

Essa semana eu envelheci uns 10 anos. Não, eu não passei a aparentar ter 25 anos (já que hoje eu aparento ter 15). Nem amadureci tremendamente. Mas, essa semana, eu comecei a me interessar por algo que pouquissimas pessoas se interessam – ainda mais uma pessoa com menos de 30 anos.

Ficção Interativa. Ou Interactive Fiction, como é mais conhecida – raramente se vê referências a esse gênero em português. Um meio de comunicação que está entre a literatura e o jogo e que tem poder para ser uma expressão muito interessante da literatura moderna.

Infelizmente, por limitações (dos programas e dos designers), muitas ficções interativas se transformam em jogos de “adivinhe o verbo”:

“Você está em um sala, diante de uma mesa com livros e materiais escolares.”

> Pegue o livro

“Eu não entendo, qual livro?”

> Pegue materiais escolares

“Eu não preciso de tudo isso”

>Examine livros

“São apenas livros”

>Vá se foder

“Desculpa, eu não compreendo esse verbo”

O que, certamente, não é uma experiência muito… inspiradora. Além disso, como poucos jogadores gostam desse gênero, um novo jogador pode se sentir intimidado pela falta de gráficos, sons, e por não estar habituado com o universo dos IFs – um jogador de primeira viagem pode perder a vontade de jogar só de ficar olhando para aquela de texto, sem saber o que deve digitar, especialmente se ele tiver cada tentativa de interagir com a história negada através de uma síndrome de “eu não reconheço esse verbo” ou “isso não é relevante”.

Eu sei, já aconteceu comigo e mais de uma vez me afastou desse gênero, que eu não sei dizer se “jogo” ou se “leio”. Interajo, acho.

Mas voltei a tentar, e obtive uma experiência… interessante.

Não irei relatar qual o jogo, por um simples motivo: irei contar o final, e é um tanto chato jogar um jogo como esse já sabendo o final. Conto apenas a minha experiência, retirando as pequenas frustrações encontradas pelo caminho (“Eu preciso jogar minhas coisas no chão para poder tomar banho? WTF?”):

Era um dia comum, como qualquer outro. Você acorda com uma ligação de um colega de trabalho, reclamando que você está atrasado e que vai te matar se você não levar seu traseiro até o trabalho AGORA. Ele desliga antes que você tenha tempo de esboçar alguma resposta.

Você está atrasado para o trabalho e parece ter tido uma noite daquelas, a considerar pelo fato de você estar suado e com as roupas sujas. Mecanicamente, você toma um banho, troca de roupas, pega suas coisas, sai do apartamento e pega seu carro.

Dirige até seu trabalho, estaciona, entra, vai até o seu cubículo, lê a nota e assina o formulário. Calmamente, você vai até o seu chefe entregar o bendito formulário para o seu chefe.

E aí é que o jogo dá um gancho de direita em você, exatamente quando o “seu” chefe diz: “Quem é você? E por que você está no lugar do Fulano? Polícia, polícia!”

A cena é cortada. Aparece um noticiário: “Para as notícías mais leves, um assaltante assaltou um apartamento, matou o morador com várias facadas e escondeu o corpo debaixo da cama. Mas isso não é tudo: ele dormiu no lugar do assalto e, no dia seguinte, tentou ir para o trabalho do morador e fingiu ser o mesmo, como se nada tivesse acontecido! Foi preso quando foi preso pelo seu chefe. Agora, para as notícias do tempo…”

E eu fiquei, estupefata, olhando para o monitor. Reiniciei o jogo, olhei embaixo da cama e… sim, lá estava o corpo.

Um jogo curtissímo, de cerca de 10 minutos. Mas que serviu para mostrar como esse meio de comunicação pode ser usado: para “brincar” com a percepção do jogador, para induzi-lo por um caminho enquanto que a verdade está logo do outro lado. Brinca justamente com uma das coisas mais interessantes da ficção interativa: você depende do jogo para ver o mundo ao seu redor, sua visão é bastante limitada pelo que você imagina que pode explorar.

Justamente, a grande força da literatura consiste em brincar com o “sentido” mais poderoso do ser humano, a imaginação. E o que pode se obter a partir daí, num misto de literatura com brincadeira, como uma mão que se estende de dentro de um livro e pergunta “este é o meu mundo, mas para onde você quer ir agora?”

Embora, é claro, boa parte das histórias sejam muito voltadas a “puzzles” para o meu gosto, mas eu creio que esse tipo de ficção interativa tem o seu público. Pessoalmente, continuo atrás de jogos que consigam brincar com minhas percepções.

Se achar mais alguma coisa, vou ver se posto alguma opinião aqui – desta vez com nomes do jogo e sem spoilers.

Anúncios

Responses

  1. Devo admitir que nunca joguei, ou melhor, faz muuuuuito tempo desde que joguei FI no computador. Lembro de ter jogado uns dois livros do gênero, também conhecido como Aventura Solo (a Devir publica alguns).

    Além disso eu redescobri o gênero ao fazer meu curso de GD onde um dos exercícios era justamente elaborar uma AS. A minha ficou incompleta, mas ainda desenrolou-se um bocado. Se quiser conferir, fique à vontade:

    http://gamerbrasilis.wordpress.com/2008/06/10/aventura-solo-text-adventure/

    :o)

  2. adorei seu post. Sou de Portugal e fan de Interactive Fiction, por isso se tiver links para sites brasileiros de IF por favor partilhe, eu recomendo http://www.ifreviews.org e http://www.ifarchive.org.

  3. realmente, eu também sinto falta de comunidades em português sobre o assunto… eu pretendo falar mais sobre isso, até comecei a escrever um pouco, mas com o final do semestre isso acabou ficando meio de lado. Mas é algo que eu quero retomar nas férias.

    Se vc tiver alguma IF para recomendar, recomende! 🙂

  4. Minhas recomendações:
    http://suitable-matters.blogspot.com/2009/03/gu


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: