Publicado por: miwi | novembro 11, 2008

Videogames São Arte

Perceba: não se trata de uma pergunta, mas uma afirmação. Videogames SÃO arte – uma arte imatura, ainda tola e frívola, mas não menos arte por conta disso. “Ah, mas se faz com interesses comerciais…” – o que, e então? Exclui-mos o cinema do mundo da arte também. “Ah, você chamaria GTA de arte?” – ué, e você por acaso chamaria as músicas da Britney Spears de “arte”?  E não é a música uma arte?

Videogames SÃO uma arte – e justamente aí jaz o problema. Por mais rápido que avance em gráficos e física avançada, os fatores que levam a um resultado artístico tem evoluído lentamente. Os conflitos da alma que resultam em arte não seguem a lei de Moore, infelizmente.

Jogos eletrônicos constituem a arte que deveria ser a responsável por derrubar, definitivamente, a quarta parede. E você pode imaginar se não é justamente isso o que ocorre. Não, a parede não está derrubada, muito pelo contrário – nós nos tornamos a quarta parede.

Se isso lhe parece abstrato, deixe-me falar sobre o livro que li no final de semana: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Um pequeno clássico da ficção científica, que os mais aficcionados pelo tema certamente devem conhecer. Comprei a edição “popular”, isto é, papel jornal, formato pequeno:

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Tratando de um futuro sombrio que já ocorre, o livro mostra uma sociedade que queima seus livros. Não que precisasse: as pessoas não possuem mais interesse algum em lê-los. Em determinado momento, a esposa-estúpida se encontra na sala de estar, rodeada por três telões, um em cada parede. Passa o dia inteiro ali, e ainda insiste para que Montag consiga logo dinheiro para a quarta parede – desta maneira, estaria ainda mais perto da sua “família”, os programas que a tratam como se a conhecessem. Os diálogos de tais programas são fascinantes, no sentido de que não dizem absolutamente NADA.

É tanta tecnologia que tais telões não trazem coisa alguma que possa ser vagamente associada a “arte”. Exploram seus sentidos, com belas visões, fantásticos fogos de artíficio, uma “interação” sem igual: os participantes do programa a chamam pelo nome, como se ela de fato fizesse parte da família!

Tal parece ser o estado atual dos jogos: uma brincadeira de fogos de artíficio, uma falsa interação para nos deixar extasiados. Mas há um pequeno problema em extasiar os sentidos: eles são perversos e, quanto mais bem alimentados eles estão, menos eles deixam nossa alma se exercitar. Não digo alma no sentido espiritual/religioso: imagine “inconsciente” ou seu “eu interior” se preferir. Seja como for, sentidos e alma não andam lado a lado, como deveriam. Os sentidos, pelo contrário, trancarão nossa alma em um lugar escuro e jogarão a chave fora se tiverem a oportunidade.

A razão? Nossa alma traz inquietação. Dor. Questionamentos. Nossa alma subjuga nossos sentidos, transforma canção em saudade, a dor física em redenção. Mostra aos sentidos quão pequenos e limitados eles são.

Duvida? Lembre-se de uma forma de arte que o marcou, que o inquietou. Quantos jogos o inquietaram como 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, e isso apenas para mencionar a ficção científica pessimista? Algumas músicas me dão vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, como The Heart Asks Pleasure First. Quantos jogos me trouxeram esse tipo de emoção, e ainda em tão pouco tempo?

Quantas vezes você jogou um jogo e, ao terminá-lo, teve a sensação de que não era mais a mesma pessoa de antes de começa-lo? A sensação de que algo naquele jogo, de alguma maneira, havia transformado você – havia trazido questionamentos, emoção, inquietação.

Arte de Van Gogh

Não digo que seja necessária tal inquietação para que exista arte, mas eu acredito que isso seja uma boa maneira de medir a maturidade de uma arte. Okami é belo, lindíssimo – mas não me mudou. Não me inquietou. Não consigo pensar em um jogo que tenha me feito ficar olhando para o teto, pensativa – “digerindo” lentamente, “saboreando”… me transformando. Zelda: Ocarina of Time me marcou, mas não me transformou de maneira significativa – no máximo, introduziu um novo patamar contra o qual eu pesaria todos os outros jogos que eu viria a jogar. E isso é bom, não é mesmo? É arte, não é? Quando você se sente frustrado quando Sephiroth assassina Aerith, isso é arte, não é? Ainda assim, terrivelmente imatura.

Há um “Cidadão Kane” dos jogos? Uma nova sinfonia? Um “Crime e Castigo”, um “Os Miseráveis”, um “A Metamorfose”? Ainda assim, é justo cobrar tais obrar? Quantos anos têm os videogames? Quantos anos tem todas as outras artes? Ainda assim, como ela irá se tornar madura se ninguém a questionar? Ninguém lhe disser “você pode fazer mais do que isso”?

Indo mais além: como isso pode ser atingido? Voltando à dualidade sentidos x alma, como lidar com a explosão de sentidos em um jogo de videogame? Como fazer com que tais estímulos não ocultem nossa alma? Para mim, os livros constituem a forma de arte mais madura da humanidade, e a música a mais universal. Será coincidência o fato dessas formas de arte pouco animarem nossos sentidos? Sim, a música é capaz de extasiar nossa audição, mas os outros quatro sentidos são pouco animados, e a audição sozinha é frágil e sonhadora, é incapaz de trancafiar nosso alma – não é a líder da gangue, como a visão e o tato.

Será que a solução seria voltar ao Atari? Ainda assim, o cinema não tem atingido resultados fantásticos? O Labirinto do Fauno não é simplesmente maravilhoso, não fica na sua mente, não lhe traz um sorriso melancólico ao lembrar-se dele? E não é cheio de cores, música? E o segredo não está, justamente, no fato de que nossa alma é muito mais estimulada de que nossos sentidos? E isso não lhe dá forças para que ela subjugue nossos sentidos, faça-os trabalharem para ela e não contra ela?

É isso que eu quero nos jogos. Não creio que eu venha a trabalhar com jogos – não que eu não me interesse, mas eu também gosto de engenharia, de cachorros e vou começar a tocar teclado/piano… sem falar na minha outra grande paixão: escrever. Com tantos interesses, não sei aonde a vida vai me levar. Mas se ela me levar por esse caminho, vocês podem ter certeza de que é com esse tipo de coisa que eu vou virar a noite insône, tentando fazer a minha parte para amadurecer essa maravilhosa forma de arte.

Enquanto esse tempo não chega, vou divagando neste blog… 🙂

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Responses

  1. O texto é interessante. E estou de acordo com quase tudo. Mas para se chamar algo de arte, é necessário mais que comoção, mudança, convulsões entre a matéria e o espírito. A arte possui um espaço próprio de produção e fruição, e os games não adentraram estes espaços. Mesmo o cinema, música ou literatura por si só não são arte. O que não reduz o valor expressivo dos games. Os jogos,de modo geral, são produtos da indústria cultural, não são produtos de arte. Existem sim jogos artísticos, mas ser tomado como midia não é o decisivo na consideração de algo ser arte ou não. Como referência no assunto cito o sociólogo/filósofo Pierre Bourdieu, que faz uma análise da industria cultural em relação à produção de arte. Estou trabalhando num texto com a mesma questão. Espero em breve trocar mais idéias sobre o assunto.

  2. avise-me quando escrever tal texto 🙂

  3. Muito bom o texto moça.
    Isso me lembra um trabalho que fiz para a facul sobre o tema.Tentei classificar Shadow of the Colossus e Ico na categoria de Game como arte.Minha prof. aceitou mas com um pé atrás rsrsrs.
    Esse assunto ainda tem muito o q amadurecermas tb considero alguns poucos games “arte”.

  4. Moça!
    Curti seu blog! Acabei de aceitar vc no Twitter do NoReset! Vamos trocar links de blogs! ^^
    Valeu!
    Bjos
    Cido
    NoReset – http://www.noreset.net

  5. Já te adicionei no meu blogroll! 🙂

  6. Muito bom o texto.

    Acho (eu+meio mundo) que arte é algo que comove e emociona, conseguimos isso com música, cinema, pintura… mas games não (salvo raríssimas excessões).

    Uma das minhas teorias para isso é que dificilmente nos emocionamos quando fazemos algo, exceto que seja algo muito forte, mas no cotidiano é dificil nos emocionar.

    Como nos games sempre “fazemos algo”, ou seja, estamos imersos ou envolvidos com a ação, acabamos não nos emocionando, assim como não nos emocionamos no dia-a-dia com coisas cotidianas. Sei lá, acho que quando o cerebro não esta passivo, apenas recebendo informações, mas esta ocupado na execução de algo, ele deve limitar nossa emoção.

    Mas é um assunto muito interessante.

  7. Eu acho que já temos grandes clássicos do videogame sim. Ainda não joguei Okami mas já vi muita gente falando que é arte basicamente porque é bonito, daí não concordo. Agora se pegar um Final Fantasy 6 ou um Chrono Trigger por exemplo, não dá pra dizer que não são maduros o suficiente para não serem considerados clássicos.

  8. Finalmente alguém falando minha língua, eu acho.

    Na minha visão, os games, como verdadeiras obras de arte interativa precisam abandonar os clichês e arquétipos hoje vigentes. O problema disso é que ao fazê-lo, simplesmente será necessário reinventar a linguagem pois precisaria-se abandonar todos os conceitos que foram criados ao longo do pouco tempo de vida da mídia desde seus primórdios e que nesse momento a limitam.

    O que existe hoje é a perpetuação do mais do mesmo, o medo de ousar, de inovar de CRIAR de fato algo novo. Isso acontece pois a indústria é muito fechada e amparada numa bolha econômica que depende do lucro e crescimento baseada em altos custos para se manter viável. Isso engessa as possibilidades e castra o potencial maravilhoso e, por que não, infinito que uma mídia interativa possui. Enquanto games forem sinônimos de apenas jogos com necessidade de haver desafio e competição, a arte não poderá emergir em obras que ignoram que a vida é muito mais que somar pontos ou zerar uma narrativa baseada em obstáculos a serem superados.

    Por isso eu acredito que no atual cenário, o nascimento de uma obra com essa desconstrução estrutural, tem mais facilidade de vir da cena independente.

    Parabéns pelo post, ele é tão profundo que confesso ainda não ter assimilado plenamente tudo que foi escrito e isso é ótimo.

    Tocando piano, sabendo escrever, programar e ainda tendo sensibilidade, você tem tudo para ser uma das pioneiras na criação de conteúdo verdadeiramente relevante nessa indústria. E pelo ideal e vontade que vi nesse post, torço muito por que isso aconteça.

    Por favor Cindy, não desista pelos motivos que você disse, essa mídia é tão maravilhosa por causa disso, tudo que você falou pode ser feito nessa ferramenta onde tudo converge magicamente.

  9. Arte pra mim nos consoles até hoje:

    Kenseiden
    Super Metroid
    Sonic the Hedgehog
    Final Fantasy VI e VII
    Metal Gear Solid
    Ocarina of Time
    Star Fox (SNES)

    Não é arte literária, mas definitivamente arte, capaz de emocionar e fazer pensar. A interatividade faz toda a diferença. Mesmo Sonic, essencialmente um pinball em forma de jogo de plataforma, com sua mistura de gameplay, gráficos estilizados e música light é uma experiência saborosa e única.

    Star Fox no SNES, com gráficos podres e coisa e tal, ainda é muito mais impactante do que as sequels. Por que? Porque você podia terminar o jogo com todos seus parceiros mortos. E apesar dos gráficos primitivos, as mortes dos parceiros são bastante impactantes e sua falta é sentida no decorrer do jogo. Isso é arte pra mim.

    Mas, eu diria que algo mais próximo de arte literária e também mais maduro pode ser encontrado nos interactive-fictions, como:
    http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch
    http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch
    ou
    http://parchment.googlecode.com/svn/trunk/parch


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