Publicado por: miwi | abril 1, 2008

[Diário Gamedev] Sketches de Personagens

Como vocês já devem ter percebido que o meu maior interesse em criar um adventure é contar uma boa história.

Uma boa história, ao contrário do que muitos podem pensar, não começa pelo que acontece nela, mas pelos seus personagens.

Quando eu consigo construir um bom personagem, a história passa a se atrelar a ele, os diálogos passam a fluir com naturalidade – quando eu tenho um bom personagem, eu não preciso gastar muito tempo imaginando o que ele irá fazer: lhes apresento o cenário e ele passa a interagir com ele.

Já tive alguns personagens assim, e já consegui fazer uma história com um personagem de uma série de anime como se os personagens fossem meus e eu os conhecesse perfeitamente 😉 (perdoem pelo rápido egocentrismo, mas, o que eu posso fazer? Eu me sinto muito realizada com uma certa fanfic de Full Metal Alchemist que eu escrevi ;p ), mas estava com alguma dificuldade para conseguir personagens assim para o meu jogo. Eu estava apenas criando “personagens” que se ligavam a “fatos”, mas… era algo tão pouco natural que eu estava tendo dificuldade para enxergar a vida desses personagens.

Aí, hoje, durante a aula de introdução a um dos assuntos mais medonhos de Sinais e Sistemas Lineares I (se você tem arrepios ao ouvir a palavra “convolução“, você é meu amigo), uma personagem resolveu surgir na minha mente, quase sorrateiramente.

Provavelmente será a personagem principal do jogo mas, veremos.

Gostaria de apresentá-la a vocês.

Ela se chama Anne, e é uma prostituta.

E está com problemas.

Um romântico, ao ler isso, pensaria em algo como essa pobre mulher deve ter encontrado o vazio existencial ao se deparar com sua vida devassa, e em como ela deve estar desesperadamente atrás de um amor verdadeiro.

Nada poderia estar mais distante da realidade – Anne tivera um único amor verdadeiro durante toda a sua vida; ou quão verdadeiro pode ser o amor quando se tem dezoito anos, e por causa desse amor ela descobrira, ironicamente, quão fácil pode ser transar com alguém sem sentir um pingo de paixão por ela.

Ele a traiu uma única vez, ela se vingou. De novo, e de novo, e de novo. Após o quarto, o amor pelo rapaz eventualmente se acabou, eles terminaram e juraram se odiar para sempre quando ela partiu para a cidade grande para cursar uma faculdade.

A faculdade era entediante, e ela logo se lembrou de algo que ela sabia fazer bem, não era tão tedioso, e provavelmente lhe renderia mais dinheiro, ao menos enquanto ainda fosse indiscutivelmente bela, e pensou, “por que não?”.

Um realista imaginaria que o problema se relacionava a algo como clientes perigosos, cafetões violentos, alguma doença sexualmente transmissível. Ou que talvez estivesse ficando velha demais para o negócio.

E também estaria redondamente enganado – Anne era de tal forma empreendedora que conseguira chegar a um renda razoável sem um cafetão, muito embora tivesse um relacionamento “amistoso” com alguns deles, recusava-se a ver clientes “problema”, um luxo que passou a se dar depois que sua agenda ficou mais “concorrida” e, do alto dos seus trinta anos, parecia muito longe de precisar se aposentar, graças aos cuidado constantes com sua aparência.

Era dessas mulheres que poderia ter sido bem sucedida em qualquer área que desejasse seguir, mas que acabara escolhendo aqui lhe exigisse menos estudos. Não que não gostasse de ler – adorava, mas, aparentemente, nunca sobre os temas propostos pelos professores, que infelizmente nunca exigiam literatura relacionada ao Kama Sutra, Serial Killers e chás.

Não, ela definitivamente não tinha nenhum dos problemas usuais de uma prostituta, talvez por ter entrado nesse “ramo” por motivos bem diferentes dos da maioria. Na realidade, era bastante decisiva e persuasiva, além de um tanto quanto metida, o que a fazia ajudar outras prostitutas que acabaram se tornando suas amigas com problemas que seus cafetões preferiam ignorar. Uma colega estava doente naquele mês? Ela emprestava dinheiro para aquele mês, cobrava em dobro e ainda a ensinava como usar uma webcam para conseguir uma grana extra. Problemas com cliente? Ela tinha uma “conversa” com o dito cujo, e ele dificilmente voltava a incomodar. Problemas de pele? Ela conhecia todos os cremes, todas as dietas, todas as receitas.

Era assim também com seus clientes – perdera a conta de quantas vezes, ironicamente, salvara um casamento após uma conversa após o sexo. Quantas vezes lhes ensinara novas técnicas, o que servia para deixar uma mulher excitada e o que não servia.

Na realidade, eram coisas como essas que a fizeram se tornar tão respeitada e a ter uma “clientela” seleta, que a pagava bem e não lhe dava problemas.

Não, seu problema era bem diferente do da maioria das suas colegas de profissão, e não envolvia nada das coisas do “mundo underground” que ela poderia esperar. Tratava-se de um problema bem feminino, na realidade: ela queria ter um filho.

Quando pensou nisso pela primeira vez, ao se deparar com um único fio de cabelo branco que surgira em sua cabeça numa certa manhã, considerou que aquilo seria fácil. Diabos, quantas vezes transava em um mês? Não deveria ser nada muito difícil conseguir convencer um cliente a transar com ela sem camisinha – depois de feitos alguns testes, claro – e assinar um documento que o isentasse de qualquer direito e dever em relação àquele filho. Se oferecesse algumas sessões de graça em troca disso, seria uma tarefa simples, muito simples.

Pensara assim até a primeira tentativa. Haviam acabado de transar, ela se dirigiu até ele e começou, com a voz sensual: “Olha, eu gostaria de lhe propor um… ” e, no meio de sua frase, ela acabou olhando de novo para ele. E para sua barriga, sua flácida barriga. E de repente não era aquele homem quem ela via, mas seu filho, disforme com uma enorme barriga. Ela parou de falar e, diante do olhar curioso do homem, teve de improvisar: “… um drinque, meu caro. Tenho uma Vodka maravilhosa, o que você acha?”, e ele respondera com um “Oras, oras, é por isso que eu gosto tanto de você, Anne!”.

Barrigas flácidas, pêlos em excesso, olhos pequenos demais. E, quando não era a aparência, era o intelecto – não que ela quisesse que seu filho fosse um cientista nuclear, mas ela gostaria que seu filho pudesse escolher qualquer área para estudar, e isso poderia ser meio difícil se ele puxasse um pai que tinha dificuldades de concordância básica após os trinta e cinco anos.

Após um mês, ela se deu conta de que, se quisesse encontrar um bom pai para seu filho, teria de sair da sua lista de clientes e ir procurar em outro lugar.

Sua busca começou aí.

E aí, o que acharam? Logo aparecem os outros personagens da história, stay tuned 🙂

(e, claro, nada é tão simples quanto parece, e eu obviamente não iria colocar detalhes mais profundos da trama, mas achei que seria legal colocar um pouco de backstory aqui 🙂

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Responses

  1. Se tu colocasse detalhes mais profundos da trama seu história iria virar ‘proibido para menores’ hauhau desculpe =]

    Tu já deve conhecer, mas vamos tentar mesmo assim… te vi perguntado sobre perfis de serial killers outro dia na NGM, e então li sobre esse jogo em que um assassino é um protagonista, pra PS2, e do Suda 51 ainda, e… é um adventure, além de estar saindo versão pra DS: Flower, Sun and Rain (vai ser chamar Flower, Sun and Rain: Unending Paradise no DS), conhece?

    Vi aqui: http://hadouken.wordpress.com/2008/03/27/adventures-estranhos-de-ds-eu-quero/

  2. Eu também fiquei interessada, vi no mesmo blog que você xD

    Pena que tem que esperar chegar a versão americana… T_T Mas, realmente, parece mto mto interessante xD

    E, bom, eu não estava falando DESSES detalhes mais profundos, huaauhauhau xDDDD

  3. Adorei a personagem
    serio msm 😀

    quando vc terminar o jogo, posta aqui no blog! o/
    hehehehehe

    Bjus

  4. Uma pergunta miwi, o que você esta estudando? ciências da computação, engenharia mecânica…? Eu cursei Sinais e Sistemas Lineares I o ano passado em engenharia mecânica e a pesar de ter alguns aspectos matemáticos “incômodos” foi uma matéria que eu gostei.

  5. Faço engenharia de automação.

    Não que eu não goste de Sinais – pelo contrário, acho uma das matérias mais interessantes do curso.

    Mas eu reprovei nela, e tive mta dificuldade com algumas coisas, então `’as vezes eu me sinto meio… frustrada ;p

  6. Frustrada com problemas em Sinais? E eu que não passo de calculo 1 na faculdade? hauahauhauahuaha xD

    E o background da parsonagem ficou maravilhoso! *___*

    E não consigo imaginar nada revelado ai que pudesse fazer parte da trama, que parece surgir depois desse texto /o/

    obs: Sua menção a fanfics me lembrou dos bons tempos do ff.net e do começo do webfanfics… ;P

  7. Realmente, bons tempos de início do Webfanfics, oras e oras lendo fanfics… =~

    Mas, poxa, DNA, você ainda não passou de Cálculo 1 na faculdade? Como assim? Você não tem levado a faculdade mto a sério, né? ;p

  8. 1 – Professores fracos

    2 – As matérias são chatas

    3 – Trabalho a malditos SEIS anos na área.

    4 – O que eu tenho pra aprender lá?

    5 – Com base nas anteriores, o bar sempre acaba sendo mais chamativo… xD

    Mas agora tranquei a faculdade, já que to trampando das 14 às 22h =/

  9. https://diskchocolate.wordpress.com/2008/04/01/diario-gamedev-sketches-de-personagens/#comments

    Muito bacana a história… muito bacana mesmo. Parabéns! Tu escreve muito bem. 🙂
    Enquanto eu lia, me lembrei do filme Obsessão (Lover Boy) que trata sobre uma mulher que quer ter um filho. E o ambiente “prostituto” + “serial killer” lembrou Still Life. 😛

    Você quer realmente saber sobre perfis de serial killers? Eu tenho um livro chamado “Serial Killers: Made In Brazil” da Ilana Casoy (sobrinha do Bóris), com histórias e depoimentos reais de crimes acontecidos no Brasil entre a década de 20 e de 90 (não tem o Maníaco do Parque). O livro é bom, tem uma leitura “difícil/pesada” mas, trata muito bem dos padrões psicológicos dos assassinos. Tem uma boa quantidade de entrevistas com os que ainda estão vivos. Se tu tiver interesse, eu te dou ele. Só não me diz que tu mora no Acre. 😛

  10. finalmente eu consegui ler T_____T

    alguém, por favor, quer vender tempo para mim?
    Vou colocar no ebay “compro tempo”

    enfim, eu gostei da trama xD aposto que a Anne ao ia se incomodar se o cliente dela fosse um brad pitt ou um tom cruise, mas enfim, voltando… Quero ver como vc pretende fazer um jogo girar em torno disso, é um tema diferente e… enfim o.o eu gostei.

    Ela vai ser assassina? Vai matar clientes mais friamente que Alexandre fazia com seus inimigos? Vai empalar alguém? Vai… *apanha*

    … Quero ver como vc vai juntar esse enredo com aqueles cenarios que me mostrou o.o’

    … E… EU QUERO JOGAR ISSO LOGO!!

    u_u
    bjus vaca

  11. […] Falando em blogs, o Disk Chocolate, da Cindy, também está postando todo o processo de desenvolvimento de um projeto. E um dos posts também é sobre personagens. […]

  12. Hm… isso é um não?

  13. Eu até gostaria de aceitar, mas eu me conheço o suficiente para saber que eu não ano com cabeça para “leituras pesadas”, e do jeito que o meu curso anda, isso provavelmente não vai mudar… =/

    Mas, muito obrigada pela oferta, foi muito gentil =**

  14. Bom… se quiser, dá um grito. 🙂 Ou até, dá uma olhada numa livraria pra ver se interessa mesmo. E sempre tem os filmes “especiais” sobre os assassinos famosos. E na Discovery também tem um programa especial sobre o assunto.


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